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Ser franciscano, hoje

Por Frei Neylor Tonin

 

Ser franciscano, hoje, é fazer a dupla experiência do Cristo pobre e crucificado e dos leprosos de todas as lepras, físicas, materiais e afetivas. É não voltar o rosto para o outro lado quando os pobres cruzam nossos caminhos. É descer do cavalo das nossas arrogâncias, para abraçá-los e para partilhar com eles nossos dinheiros. Este é o caminho franciscano de encontrar no leproso o rosto machucado de Jesus.

Ser franciscano, hoje, é fazer um ato absoluto de fé, sem ressalvas e sem suaves prestações, e viver na esfera do divino, gravitando em torno a Deus. Ele foi para São Francisco “o Bem, todo o Bem, o sumo Bem, o Bem universal”. Um franciscano, por isso, o ama com todo o coração e com toda alma. Deus é a sua aposta, pois Ele é a vida da sua vida.

Ser franciscano, hoje, é fazer a experiência radical da gratuidade, reconhecendo e crendo que somos amados pelo Deus de todos os amores, que provê o alimento para os pássaros do céu e cuida dos lírios dos campos. Ele é um Deus-providência que cuida até dos cabelos de nossas cabeças. Em nossas mesas, acreditamos, nunca faltarão pão e vinho, sempre que, generosamente, partilhamos com os necessitados o peixe de nossas redes. Ele é a nossa bênção que faz o sol nascer para a nossa alegria e faz sua chuva encher de flores os nossos jardins.

Ser franciscano, hoje, é ter como regra e ordem de vida o evangelho de Jesus. Esta sabedoria é um caminho e, como tal, é uma proposta e uma provocação que prometem uma vida de abundância e imortalidade. Os caminhos humanos podem ser bons e muitas vezes são muito bons, mas podem, ao mesmo tempo, ser relativos e caducos. O que um franciscano não pode é confiar, de forma absoluta, em seus celeiros e enterrar seu coração em arcas de tesouros materiais. Na mística franciscana, temos que abandonar as pompas do consumismo, porque os apetites humanos são limitados e inconsistentes.

Ser franciscano, hoje, é ser irmão, é ter sentimentos e práticas de fraternidade, de generosidade e solidariedade evangélicas. Ser irmão é o maior título das aspirações humanas. Todos somos irmãos. Somos companheiros de destino e ninguém é uma ilha. Vivemos todos numa mesma casa que é de Deus, que é Pai de todos. Tanto quanto de Deus, nossa vida pertence aos irmãos.

Ser franciscano, hoje, é desnudar-se e escolher a Deus como pai único e definitivo. Este despojamento presidiu a vida de Francisco, levando-o a renunciar a toda e qualquer riqueza para identificar-se com o Cristo pobre e crucificado. Assim desnudo, sentiu-se e tornou-se livre para desposar à Senhora e Dona Pobreza. Passou a amar a Pobreza em nome de Cristo e de todos os pobres da terra. Há uma pobreza bendita que é assumida por amor ao Reino dos Céus e uma pobreza maldita, fruto das injustiças humanas.

Ser franciscano, hoje, é amar a Irmã Clara e todas as Claras do mundo com um amor gratuito e com um coração encantado de trovador. Nenhuma mulher pode ser propriedade de nossos apetites e egoísmos, quando a amamos com sentimentos limpos. A mulher é linda porque Deus é a fonte da beleza. Ela é parceira de amor porque Deus a fez expressão de seu amor para o homem. Todo franciscano vê a mulher como se fosse clara de nome, mais clara por sua vida e claríssima por suas qualidades e virtudes.

Ser franciscano, hoje, é dispor-se a romper o círculo infernal do individualismo em favor dos ideais da comunidade. Vivemos graças aos outros e temos que viver para os outros. Somos membros de um mesmo corpo social e o destino de uma pessoa está ligado ao destino da sociedade. Temos que lutar em favor da fraternidade humana, sem distinção de classe, nação, idade, pobreza ou fortuna, cor e religião.

Ser franciscano, hoje, é reconhecer que todos tem direito de participar da festa da vida, não apenas por caridade, mas por justiça. Hoje, infelizmente há pobres demais e ricos de menos. Os seguidores de São Francisco devem proporcionar a todos o direito à mesa da comida, atualizando o milagre da multiplicação dos pães.

Ser franciscano, hoje, é vivenciar uma profunda alegria espiritual, com o discernimento de que as pessoas não são alegres. Experimentam euforias, mas não gozam de paz. Suas bocas riem, mas seus rostos não são sorridentes. E, por isso, não tem a verdadeira alegria franciscana. Um franciscano deve ser alegre pelo caminho real do amor sem travas e do sacrifício sem relutância e parcimônia.

Ser franciscano, hoje, é viver para além das ofensas e estar pronto para o perdão, sabendo que é perdoando que se é perdoado. O perdão e a paz são presentes do Cristo Ressuscitado. Um franciscano tem que ser homem e mulher de comunhão, alimentando a rebeldia da esperança que rechaça todo tipo ódio, de derrota e desejo de vingança.

Ser franciscano, hoje, é conviver com o lobo de Gubbio, é não poluir as águas, nem sujar as ruas, é reverenciar todas as criaturas e cantar o Irmão Sol e a Irmã Lua. É ter espírito ecológico, segundo o qual todos os seres são expressão do amor de Deus e formam conosco a grande sinfonia de louvor à vida e ao seu Criador.

Ser franciscano, hoje, é ser salmista da vida, rezando a Deus: Faz-me da vida bom pastor, ardente profeta, encantado poeta. Hoje e amanhã, ser franciscano será viver feliz pela graça de viver, dando as costas a queixas, broncas e condenações que nos distanciam da casa da fraternidade e da festa da Páscoa.

Ser franciscano, hoje, é, enfim, olhar a vida como graça e a morte como irmã. Se a vida comporta encontros e desencontros, a morte propiciará o grande encontro com o Deus de todas as graças. Se abraçarmos a vida com espírito franciscano, seremos abraçados na morte pelo Deus de todos os abraços. Por isso pode um franciscano rezar: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Morte da qual homem algum pode fugir”. Dela não fugiremos porque será nossa última oração e o começo de nossa suprema ventura. .

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